quinta-feira, março 20, 2008

Éramos adolescentes, nos anos 80, quando Edil me mostrou sua poesia:
ESTAÇÃO FECUNDA

Não devia ter me deitado com teu corpo.
Acabei me lembrando que quero morrer disso.
E não devia ter me lembrado, não podia
eu, que já seguia seguro esse caminho
em que se adoece aos poucos.
em que se entrava os pés com espinhos.
Já me acostumara a estar sozinho;
não devia ter me lembrado de que preciso do outro.
Não podia ter me dado esse tormento
Não podia ter me dado esse prazer imenso de redescobrir como se faz um ninho.
de inaugurar esse momento colocando um ovo.
Me aconchego por debaixo do cobertor
procuro sentir seu cheiro, sua umidade, sua musculatura
e me descubro gravitando numa estação fecunda
onde sou eu um dos gêmeos alegres e univitelinos
onde você é meu irmão de corpo & alma
e onde o amor é esta estação
de onde se nasce de novo
e se naufraga.
Postado por EDIL CARVALHO


Eu, então, quis fazer-lhe minha réplica:
ESTAÇÃO FEBRIL por Luís Capucho


Não pude evitar que eu também quisesse colocar meu ovo.
Fiz com as luzes apagadas.
Esperei que chegasse a madrugada e quando os galos começaram a cantar muito longe, botei.
Não havia para mim nenhum significado em colocá-lo:entre minhas cobertas e pernas era só o que me faltava.
Repeti o prazer até o terceiro ovo.
Não pude evitar que me viessem imagens de outros homens
colocando seus ovos
e me pareceu que somente isto lhes faltava,
que nada mais os aproximaria de mim
senão esse momento de colocarem os ovos.
E que também nada mais nos bastaria, a cada um,senão os nossos próprios ovos.
Os galos cantavam muito longe.
As luzes estavam apagadas.
Naquela noite eu podia dormir tranquilo:
tinha fundo.

E ele avisou-me que botaria em seu blog, ontem:
http://sanguecentelha.blogspot.com/
Hoje, botei aqui...

2 comentários:

EDIL CARVALHO disse...

Isso, Luís: continue botando seus poemas e ovos aí, que eu fico cacarejando aqui de felicidade!!

Edgard Westwind disse...

Ah! A Doce Inspiração da Juventude!