segunda-feira, agosto 06, 2018


Quando passo, olhando através da janela do ônibus na Domingos Martins, vejo que há um cara que consegue se manter no prumo em seu corpo por muitas horas, sentado numa cadeira, diante de uma clínica, que tem ali. Mas eu, sentado dentro do ônibus ou na posição em que estou agora, nessa cadeira preta diante do computer, não consigo me manter aprumado. Tem uma coisa, uma força no meu corpo, uma tentativa de prumo, que me deixa sempre o corpo fora do lugar.
Essa é uma questão pra mim e deve ser uma questão que aconteça também no corpo das pessoas que estão presas, que é a tentativa de achar um lugar de quietude, de paciência, de tranquilidade e força. Imagino que eu nunca tenha tido essas qualidades no corpo e acho que sempre imaginei o alcance disso, com o alcance da maturidade, que pra mim, ser homem adulto, é o mesmo que ter masculinidade.
Essas coisas, essa ideia de que eu vá me aprumar, quem sabe, seja apenas ilusão. E um indício disso é que com o passar do tempo, todas as coisas vão se transformando, vão perdendo a forma que havia nelas, mesmo que tenham chegado a um ponto que tenha nos parecido definitivo. Eu tenho pensado bastante, meio sem querer, nesse lance da posição, do lugar de um corpo. E conversando com um homem numa festa em que fui, estava lhe dizendo sobre fazer coisas que fiquem, coisas duráveis, como a posição do corpo do homem sentado que vejo da janela do ônibus, na Domingos Martins. E curti muito um momento em que falei pra ele, que para que as coisas pudessem ficar, elas não precisariam ter a dureza do corpo de um edifício, por exemplo. Poderia durar e ser firme, como coisa etérea, assim, como as bandeiras flamejantes retratando o corpo morto, assassinado do Cara de Cavalo. Bandeiras que por ideia do amigo João Santos, inspiraram a foto de capa do CD Poema Maldito. E nisso há muitas considerações. E curti muito ter falado isso pro homem e pensei até em dizer-lhe outra vez a mesma coisa, na mesma hora. Mas ele parecia estar alheio a esse ponto da conversa e, aí, continuei falando outra coisa.
Esse texto continuaria, mas paro aqui.

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